terça-feira, 22 de julho de 2008

O complexo de carreteiro

Ao longo dos tempos tem sido afirmado gaiatamente que o barranco teve considerável influência na formação da personalidade e do caráter do gaúcho. Embora até hoje nenhum grande nome do mundo da psicologia tenha abordado a questão com a devida profundidade – o único a se manifestar sobre o tema foi o Analista de Bagé, consagrado personagem de Luis Fernando Veríssimo, mas a sua avaliação pode ser considerada um tanto parcial, por motivos óbvios – o assunto é motivo para piadas e brincadeiras de toda a ordem.

Independente da confirmação ou não dessa pretensa teoria, no entanto, convém observar outras influências das mais ternas tradições do Estado na vida moderna do gaúcho. Um exemplo disso pode ser notado na atitude dos motoristas rio-grandenses quando ao volante, especialmente nos momentos de arrancar com o veículo após a abertura do sinal em meio a um trânsito cada vez mais caótico a espera do chamado colapso – quando tudo vai parar e não haverá mais como se ir, a não ser a pé.

Invariavelmente, nestes momentos o motorista gaúcho - sempre apressadinho, espertinho e malando - demora um tempo exagerado para movimentar o seu carro. Primeiro, ele não está atento para a abertura do sinal e só se dá conta da mudança de cores quando ouve a buzina dos carros atrás do seu. Aí o motorista que é o primeiro na fila da sinaleira vai conferir se o sinal abriu mesmo. Na seqüência engata a primeira para dar início à movimentação do carro e começa o processo de arrancada.

Nessas horas, depois de uma demora descabida e infindável – especialmente para os motoristas atrás dele, sempre apressados e prontos para jogar o carro em cima do da frente – parece se manifestar claramente outra influência das origens campeiras do povo desta terra. A forma lenta, quase parando, com que os motoristas fazem o seu carro se mover logo após a abertura do sinal pode evocar muitas coisas – bobeira, preguiça, desatenção, desinteligência, desconsideração para com os demais motoristas na fila atrás dele, etc. – mas a mim lembra uma figura tradicional do Rio Grande do Sul: o carreteiro.

A minha teoria é de que o motivo que leva os motoristas gaúchos a serem tão lentos e modorrentos na hora de arrancar com o carro após o sinal ficar verde é a lembrança saudosa e a herança genética do condutor da carreta. Por momentos o motorista se transporta para algumas décadas ou centenas de anos no passado e recorda do tempo em que precisava gritar alto e insistentemente “êra boi, êra boi” (é êra mesmo e não uma conjugação do verbo ser) e usar a “guilhada” – uma vara comprida com uma espécie de prego afiado na ponta – para fazer os bois se mexerem.

Bom, essa era a primeira parte. Se fazer os bois se moverem era um custo, imagina obrigá-los a andar rápido. Nem pensar! O movimento inicial da carreta, geralmente com os eixos de madeira chiando pelo contato com as rodas também de madeira, era o que se pode chamar hoje em dia de câmera lenta. Muito vagarosamente a carreta começava a andar e seguia de forma lenta num irritante chiado constante pelo roçar da madeira na madeira.

Ao ver os motoristas gaúchos, sempre apressados e agitados, repito, locomoverem seu carros de forma tão lenta ao saírem da sinaleira, não consigo deixar de me lembrar das carretas que povoaram a minha infância e de comparar os condutores dos modernos automóveis aos rudes carreteiros de antigamente. E isso me leva a crer que a afirmação maldosa sobre a influência do barranco na personalidade do gaúcho possa ter algum sentido. Caso contrário, de que outra forma é possível explicar esse complexo de carreteiro manifestado pelos motoristas gaúchos em pleno século XXI?

quinta-feira, 10 de julho de 2008

A realidade e o futebol

Uma das atitudes dos governantes que mais irritam e exasperam os contribuintes, pelo menos aqueles conscientes e ainda não amortizados pelas notícias do país que “vai muito bem”, conforme a panacéia brasiliense, é a solução de problemas de caixa do tesouro com aumento de impostos. Ou a criação de novos, para não ter que fazer o esforço de aumentar alíquotas. É sempre assim: quando falta dinheiro para o governo, a primeira idéia “brilhante” que surge na cabeça não menos “brilhante” dos tecnocratas agarrados ao poder é criar um novo imposto. Pensar em criar fórmulas para contornar os problemas, muitas vezes bem simples – como reduzir os gastos, ou melhor, controlar os gastos da máquina administrativa – é complicado. Aliás, como tem sido complicado pensar em quase tudo que não seja uma forma de tirar algum proveito próprio das situações.

E sabem por que essa atitude irrita as pessoas conscientes, os verdadeiros cidadãos? Claro que em primeiro lugar está o fato de meter a mão no bolso de quem já está cansado de pagar imposto numa das cargas tributárias mais altas do mundo e não ver quase nenhum sentido nisso. Não é de hoje que as mazelas sociais desse país estão aí para provar e nem cabe aqui enumerá-las, pois todos as conhecem detalhadamente. E também não é de agora que os governos se sucedem na mesma e repetida reclamação de sempre: Não temos dinheiro para fazer obras, os recursos são escassos para a segurança, será reduzida a verba para a educação e assim por diante numa eterna balela sem fim. E existem até casos mais graves como Alagoas e agora o Rio Grande do Sul onde começa a faltar dinheiro até para o pagamento do funcionalismo. Pelo menos por enquanto – depois de frustrado o pacote fiscal da governadora Yeda antes mesmo de iniciar seu governo – não se ouve falar em elevação de alíquotas ou criação de impostos. Ainda. Mas não vai ser por falta de algum gênio da criatividade...

Outro motivo que geralmente irrita as pessoas, aquelas mais conscientes, repito, é a falta de criatividade absoluta dos dirigentes eleitos ao apelar para tão simplório, óbvio e mesquinho recurso de aumentar os impostos para resolver os problemas de caixa. Mesmo que a ladainha dos políticos, quase sempre a mesma antes das eleições, já tenha enchido a paciência das pessoas e quase ninguém mais acredite no que dizem, alguém acaba sendo eleito num processo de voto obrigatório e pouca consciência política. Além disso, dentro de nossa cultura do “alguém tem que fazer alguma coisa” as pessoas sempre esperam – mesmo não acreditando muito – que surja um político com capacidade suficiente para encaminhar soluções objetivas às questões mais prementes. Na sua passividade clássica, oriunda de nossas origens de pouca disposição para o trabalho e, portanto, para resolver problemas, assim como de esperanças de uma solução divina, as pessoas depositam seus anseios no próximo eleito, que frustra suas expectativas e, assim, a vida continua numa roda viva eterna. A esperança é a última que morre....

Nesse quadro lamentável do cotidiano brasileiro uma das distrações principais da população tem sido o futebol. Mas, por evidente, esse também não pode ser muito diferente da realidade onde está inserido. Assim, os já conhecidos desmandos, perpetuação no poder, aproveitamento político de situações e denúncias de falcatruas as mais diversas, também fazem parte do cotidiano desse esporte, por mais esforços que sejam feitos no sentido de evitar tais problemas. No entanto, diante de uma formatação mundial e até por legislação específica, os clubes vêm adotando ao longo dos tempos uma conduta mais profissional e uma estruturação voltada ao negócio. Em outros países, como na Europa, os clubes são propriedades de investidores que, como tal, pretendem alcançar lucro ao final da temporada. Para isso montam estruturas altamente profissionais, tal qual uma empresa, onde não há espaço para amadorismos e erros. Tudo tem que funcionar perfeitamente conforme o planejado, com despesas e receitas altamente controladas por pessoas competentes e gabaritadas para a função, escolhidas no mercado. Tal ocorre também na parte esportiva, onde sempre são buscados os melhores jogadores, treinadores e assessores.

Infelizmente aqui no Brasil, embora a enorme paixão que representa o futebol, tal atitude não se repete. Se por um lado isso é bom, pois o futebol mexe com a paixão de maneira particular entre nós, por outro permite que os desmandos continuem a existir e a falta de planejamento e o mau uso do esporte ainda sejam práticas comuns. Mas o que mais preocupa é falta de planejamento ou a existência de um planejamento caótico, calcado praticamente na revelação de novos jogadores para vender seus direitos federativos (o antigo passe) aos grandes e ricos clubes europeus. Esse parece ser o grande planejamento estratégico dos clubes brasileiros para salvar suas finanças e encerrar o ano com os balanços num vermelho menos vivo. As explicações para isso são muitas e as motivações também. O futebol é caro, os salários são cada vez mais altos, as despesas com estádios e com impostos também. Isso dificulta a vida dos clubes e seus dirigentes precisam se desdobrar para atender os compromissos.

Porém, tal como os governantes brasileiros, as soluções por eles encontradas, geralmente, são as mais simplórias possíveis. Criatividade na resolução de seus problemas é notada em poucos lugares. E assim, muitos clubes atrasam salários, não recolhem impostos e tocam a roda viva do circulo vicioso. A mesma de sempre de um país acostumado com isso. Acostumado a não buscar soluções diferentes para nada.

Apenas o óbvio.

Lamentável!

Efeito suspensivo

Sentado sobre os calcanhares no topo da coxilha, “bombeando” a criação, Seu Pompílio pensava no filho que acabara de nascer. O guri chegou, assim, na madrugada, meio no susto, e ele teve que sair às pressas em busca da parteira e das comadres pra auxiliar no parto. Não que a dona Antonieta fosse se assustar, afinal de contas esse era o seu oitavo filho nos vinte anos de casados. Mas ele não queria participar daquela sangueira e nem gostaria de ver a companheira sofrendo, muito menos sozinha. Apesar de saber quanto “Toninha” era forte, o que pudera constatar nos inúmeros contratempos proporcionados pela vida campeira no interior gaúcho, ele entendia perfeitamente que nesses momentos uma mulher se fragiliza e precisa de outro tipo de apoio que não poderia ser dado por ele. Por isso ficava mais tranqüilo com “as comadres” na casa.

Depois que a ajuda chegou e começou a correria da mulherada providenciando toalhas, água quente e se desdobrando para conter a gurizada que queria saber o que estava acontecendo, ele sossegou um pouco, ainda apreensivo com a situação da patroa. Só se acalmou mesmo quando ouviu o choro do piá e foi chamado para ver o novo rebento. Era um guri saudável, meio murcho como todo o recém-nascido, mas inteiro – o que era mais importante. Depois de dar uma olhada no filho novo, segurou a mão da mulher, passou carinhosamente a outra mão no seu rosto e saiu do quarto. O pior já havia passado e agora era dar um jeito de manter a criança saudável e alimentada, além de controlar o resto da “piazada” nesse dias em que Dona Antonieta ficaria de resguardo.

Quando clareou o dia, Seu Pompílio tomou umas duas ou três cuias de chimarrão no galpão dos fundos, esquentou as mãos no fogo de chão e foi observar a lida. Depois de concluída a função de tirar o leite e encaminhar as vacas para o pasto, decidiu dar uma volta pela propriedade pra espairecer e pensar na vida. O sol já tinha nascido quando chegou ao topo da pequena coxilha, localizada à direita da casa principal, a menos de dois quilômetros de distância. Enquanto pensava na nova situação, ouviu o ruído de galope. Era o compadre Juca, vizinho mais perto, que chegava pra cumprimentar pelo nascimento do guri.
- Pos olha, vivente! Estava aqui pensando num nome pro novo piá. Os de santo, que eu gosto, já usei todos. Agora ta ficando difícil, explicou.
- Mas porque se preocupar com isso logo agora, compadre? Deixa pra depois! Ainda é tempo de se comemorar a chegada do menino, comentou o visitante.
- Ta certo! Mas eu quero colocar um nome diferente no piá. Um nome moderno.
- Bueno, pode ser! Fica tranqüilo que a gente le ajuda depois.
- É, mas tá difícil. Já nem sei se tá me faltando idéia ou sobrando filho. Mas não to achando um nome dos bom. Nas outras vezes foi mais fácil. Vamos pra casa, tomar um café?

Enquanto as mulheres ainda continuavam agitadas com o parto, os dois se instalaram na cozinha simples, junto à mesa de tronco ao lado do fogão a lenha. Tomaram café passado, com leite fervido, em canecas de “louça”, acompanhado de pão de trigo, lingüiça, queijo e “chimia”. Depois foram sentar nos fundos, no pequeno pátio entre a casa principal e o galpão maior, aproveitando o sol morno do início da primavera pra fumar um “palheiro”.

Mais uma vez o vizinho chamou a atenção para o fato de seu Pompílio ainda não contar com luz elétrica em sua casa – o que já fazia alguns anos. Pra ele, “luz a gente tem com o sol e quanto escurece acende um lampião”. Apesar disso, não recusava os benefícios da energia: Tinha instalado “um bico de luz” no galinheiro pra “esquentar os pintinhos no inverno”, como gostava de alardear. A energia elétrica também bombeava água do poço artesiano para uso da família. Porém, luz dentro de casa, nem pensar! Televisão ele mal conhecia e rádio, só de pilha, pra ouvir “jogo do colorado e as notícia”.

Foi justamente num desses noticiários repletos de informações sobre a situação nacional, CPIs, mensalão, mensalinho e impi... (como é que é mesmo? Bueno, querem apear o presidente do poder), que ele achou um nome interessante: “Efeito Suspensivo”. Analisou longamente e concluiu que esse nome serviria pro novo filho. Explicou pra Dona Antonieta que considerava um nome garboso, moderno e diferente.
- Diferente sim, concordou ela. Mas tu sabes o que significa isso?
- Bueno, saber em não sei! Mas isso é o de menos. O guri também nunca vai saber!

Seu Pompílio tinha consciência de que um filho seu dificilmente conseguiria sair daquele local pra ser alguém “na cidade”, como dizia. Estudar era só até aprender a ler, escrever e fazer conta de somar e multiplicar. Depois disso, como os demais, ia ajudar na lida a fim de assegurar o “pão nosso de cada dia” na mesa. O resto, para ele, era apenas estória. Como as que ele ouvia no “noticiário” e das quais pretendia deixar os filhos bem longe enquanto pudesse. Considerava melhor manter a filharada por perto, “dentro da linha”, do que deixar que se fossem “a la cria” mundo afora, onde poderiam acabar fazendo aquelas mesmas bandalheiras que o rádio contava. “Tá loco!”, pensava enquanto tirava o chapéu e olhava para o céu, como a pedir desculpas “pro patrão velho lá de riba”.